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eagleslayor- 05-03-2007
Virtual...
Lê que vale a pena! > > > > > > > > Entrei apressado e com muita fome no restaurante. Escolhi uma mesa > > > > bem afastada do movimento, porque queria aproveitar os poucos > > > > minutos que dispunha naquele dia, para comer e acertar alguns bugs > > > > de programação num sistema que estava a desenvolver, além de >planear > > > > a minha viagem de férias, coisa que há tempos que não sei o que >são. > > > > > > > > Pedi um filete de salmão com alcaparras em manteiga, uma salada e >um > > > > sumo de laranja, afinal de contas fome é fome, mas regime é regime > > > > não é? > > > > > > > > Abri o meu portátil e apanhei um susto com aquela voz baixinha >atrás > > > >de mim: > > > > > > > > - Senhor, não tem umas moedinhas? > > > > > > > > - Não tenho, menino. > > > > > > > > - Só uma moedinha para comprar um pão. > > > > > > > > - Está bem, eu compro um. > > > > > > > > Para variar, a minha caixa de entrada está cheia de e-mail. > > > > > > > > Fico distraído a ver poesias, as formatações lindas, rindo com as > > > >piadas malucas. > > > > > > > > Ah! Essa música leva-me até Londres e às boas lembranças de tempos > > > >áureos. > > > > > > > > - Senhor, peça para colocar margarina e queijo. > > > > > > > > Percebo nessa altura que o menino tinha ficado ali. > > > > > > > > - Ok. Vou pedir, mas depois deixas-me trabalhar, estou muito >ocupado, > > > >está bem? > > > > > > > > Chega a minha refeição e com ela o meu mal-estar. Faço o pedido do > > > > menino, e o empregado pergunta-me se quero que mande o menino ir > > > > embora. > > > > > > > > O peso na consciência, impedem-me de o dizer. > > > > > > > > Digo que está tudo bem. Deixe-o ficar. Que traga o pão e, mais uma > > > > refeição decente para ele. > > > > > > > > Então sentou-se à minha frente e perguntou: > > > > > > > > - Senhor o que está fazer? > > > > > > > > - Estou a ler uns e-mail. > > > > > > > > - O que são e-mail? > > > > > > > > - São mensagens electrónicas mandadas por pessoas via Internet > > > > (sabia que ele não ia entender nada, mas, a título de livrar-me de > > > > questionários desses): > > > > > > > > - É como se fosse uma carta, só que via Internet. > > > > > > > > - Senhor você tem Internet? > > > > > > > > - Tenho sim, essencial no mundo de hoje. > > > > > > > > - O que é Internet ? > > > > > > > > - É um local no computador, onde podemos ver e ouvir muitas >coisas, > > > > notícias, músicas, conhecer pessoas, ler, escrever, sonhar, > > > > trabalhar, aprender. Tem de tudo no mundo virtual. > > > > > > > > - E o que é virtual? > > > > > > > > Resolvo dar uma explicação simplificada, sabendo com certeza que > > > > ele pouco vai entender e deixar-me-ia almoçar, sem culpas. > > > > > > > > - Virtual é um local que imaginamos, algo que não podemos tocar, > > > > apanhar, pegar... é lá que criamos um monte de coisas que > > > > gostaríamos de fazer. > > > > > > > > Criamos as nossas fantasias, transformamos o mundo em quase como > > > > queríamos que fosse. > > > > > > > > - Que bom isso. Gostei! > > > > > > > > - Menino, entendeste o significado da palavra virtual? > > > > > > > > - Sim, também vivo neste mundo virtual. > > > > > > > > - Tens computador?! - Exclamo eu!!! > > > > > > > > - Não, mas o meu mundo também é vivido dessa maneira...Virtual. > > > > > > > > A minha mãe fica todo dia fora, chega muito tarde, quase não a > > > > vejo, enquanto eu fico a cuidar do meu irmão pequeno que vive a > > > > chorar de fome e eu dou-lhe água para ele pensar que é sopa, a > > > > minha irmã mais velha sai todo dia também, diz que vai vender o > > > > corpo, mas não entendo, porque ela volta sempre com o corpo, o meu > > > > pai está na cadeia há muito tempo, mas imagino sempre a nossa > > > > família toda junta em casa, muita comida, muitos brinquedos de > > > > natal e eu a estudar na escola para vir a ser um médico um dia. > > > > > > > > Isto é virtual não é senhor??? > > > > > > > > Fechei o portátil, mas não fui a tempo de impedir que as lágrimas > > > > caíssem sobre o teclado. > > > > > > > > Esperei que o menino acabasse de literalmente 'devorar' o prato > > > > dele, paguei, e dei-lhe o troco, que me retribuiu com um dos mais > > > > belos e sinceros sorrisos que já recebi na vida e com um 'Brigado > > > > senhor, você é muito simpático!'. > > > > > > > > Ali, naquele instante, tive a maior prova do virtualismo insensato > > > > em que vivemos todos os dias, enquanto a realidade cruel nos >rodeia > > > > de verdade e fazemos de conta que não percebemos!


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